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Oficina de sistemas cicloviários reúne teoria e prática na Bienal

Realizada pelo Programa Soluções para Cidades, da ABCP, a atividade teve como pano de fundo a ciclofaixa de Moema e envolveu estudos, debates e até mesmo um passeio pelas ruas da cidade

08/12/2011, atualizado em 23/01/2012

 

Como projetar sistemas cicloviários? Com teoria, pesquisa e projetos. Mas como conhecer de perto as verdadeiras necessidades dos ciclistas? Com vivência e prática. Foi combinando estas duas formas de “observar” as cidades que ocorreu a oficina “Projetando Sistemas Cicloviários”, realizada pelo Programa Soluções para Cidades, da ABCP – Associação Brasileira de Cimento Portland.

O arquiteto urbanista Ricardo Corrêa, da TC Urbes, foi o coordenador da atividade, que contou com diversos profissionais e interessados na área. Consultor na área de transportes, planos e projetos cicloviários, Corrêa trouxe aos participantes não somente sua experiência no tema, mas, sobretudo, a apresentação de uma metodologia para a elaboração de planos cicloviários, tendo como pano de fundo a ciclofaixa de Moema, implantada recentemente na capital paulista.

“A infraestrutura cicloviária não é o único ponto. A questão é trabalhar a educação e a gestão dentro dos órgãos públicos. Isso é essencial para um bom planejamento cicloviário”, explica.

 

Passeio pela Ciclofaixa

A oficina contou ainda com uma atividade especial, e de grande relevância para o entendimento de como o ciclista encara o transito na cidade: um passeio de bicicleta da Oca, no parque Ibirapuera (onde acontece a Bienal), até a ciclofaixa de Moema. “A ideia era trazer os técnicos, sobretudo arquitetos , para pensar o planejamento cicloviário a partir da perspectiva de um ciclista, e não necessariamente do olhar dos motoristas”, explicou Ligia Pinheiro, arquiteta do programa Soluções para Cidades e organizadora da atividade.

“A saída para pedalar teve esta intenção e atingiu o objetivo: mudou, para os participantes, a forma de pensar este modal”, completa.Em aproximadamente nove quilômetros, os participantes puderam sentir, através da vivência, como realmente se comportam ciclistas e veículos dentro e fora deste espaço. Por ser realizada no parque Ibirapuera, o percurso inclui diferentes tipos de estrutura, indo desde um espaço completamente voltado para o ciclista até ruas sem nenhum tipo de sinalização ou preparo, que separam o parque da ciclofaixa.

No retorno, a oficina contou ainda com discussões em grupo sobre os principais problemas encontrados e quais as possíveis diretrizes de melhorias para a rota cicloviária de Moema.“Mais do que a segurança somente, a cidade ciclável é aquela que permite a você ir da origem ao destino com conforto e tranqüilidade. Isso é essencial para o ciclista e para a humanização da cidade. Uma cidade democrática é aquela que contempla todos os meios de transporte”, conclui Ricardo Corrêa.

A oficina foi a segunda parte do evento “Cidades Cicláveis”, que aconteceu nos dias 1 e 2 de dezembro. No primeiro dia, foi realizado um seminário, que reuniu importantes personagens ligados debate sobre a questão das ciclovias nos municípios brasileiros.

 

Experiências

Para o participantes, o evento valeu não só pela troca de ideias e conhecimentos mas, também, pelas experiências.

“Realmente presenciar mulheres e pessoas que nitidamente não estavam acostumadas a pedalar foi sem dúvida a melhor experiência do dia”, conta o jornalista André Piva, editor do site BikenaMídia.com (www.bikenamidia.com.br), que esteve presente à oficina. “Escutei muitas pessoas dizendo que fazia anos que não montavam numa bicicleta. Se olharmos para este ponto, podemos considerar que o evento foi marcante por essa troca de ideias entre as pessoas interessadas e a imersão do uso da bike, por mais que tenha sido por poucos quilômetros, acho que já valeu a pena!”, conta.

Piva, que hoje mora em São Paulo mas já chegou a se mudar da cidade em função dos congestionamentos, reconhece que a mudança é gradual. “Eu acredito que existem muitas pessoas que usam e pretendem usar (a bicicleta), mas uma mudança de comportamento leva algum tempo” observa. “E tenho certeza que em breve, os moradores dos bairros com estrutura cicloviária vão se encorajar a tomar as ruas novamente. A ocupação da cidade por pessoas é um caminho sem volta. Já vimos isso na Europa, EUA, Colômbia, entre outros países. Agora chegou a hora do povo brasileiro valorizar mais os espaços urbanos”, conclui.

Para a arquiteta Hellen Miranda, 30, que trabalha em uma consultoria na área de engenharia de transportes, a Oficina atingiu em cheio os objetivos. “Acho que a Oficina abriu minha mente, especialmente para entender que um projeto só poderá se consolidar de forma positiva quando houver a reeducação da população”, conta. “Cada pessoa veio de um lugar diferente, com experiências também distintas”.

Helen, que fez mestrado em engenharia de transportes, na área da mobilidade urbana sustentável, destaca os pontos negativos e positivos que a observação prática rendeu: “A melhor parte com certeza foi a volta de bicicleta, pois só assim pude perceber os reais problemas apresentados pelo projeto de Moema. Se tivéssemos ficado apenas na teoria o resultado certamente não seria o mesmo”, avalia. “Infelizmente a ciclofaixa em Moema se mostrou perigosa e sem nenhuma segurança. Senti-me o tempo todo preocupada com os veículos que estavam perto de mais, ou irritados com nossa presença, como se estivéssemos ocupando um espaço que pertencesse apenas a eles.”

Esta opinião é compartilhada por Melissa Fortes, 34, arquiteta que também estuda a fundo o tema Mobilidade Urbana Sustentável e que teve, na oficina, a oportunidade de vivenciar a realidade dos ciclistas na capital paulista. “O percurso, foi, de fato, muito legal e acabou quebrando um tabu para mim: é difícil andar de bicicleta numa cidade que não a incentiva, porém não é impossível”, observa.

“O passeio pela ciclofaixa mostrou as inúmeras dificuldades, culturais inclusive, que existem hoje na cidade. Porém, eu entendo e quero acreditar que é um início e, como todo início, os problemas aparecem com mais facilidade. É preciso ter uma política séria para saber interpretar os fatos e ir gradativamente acrescentando melhorias para que o sistema seja retroalimentado e funcione. É preciso paciência e estímulo para que a cidade possa finalmente ter um percurso de ciclovias para chamar de seu”, conclui.

 

   
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